Sunday, 20 April 08, 06:19 AM
Quando saí de minha casa debaixo de um sol forte para atravessar a cidade em busca de informações sobre o time feminino do Juventus, não fazia a menor idéia do que encontraria pela frente.
Cheguei à Rua Juventus por volta das 13:30 e encontrei a técnica Magali em sua sala no departamento de futebol feminino.
Muito amavelmente me convidou a sentar e começamos a conversar. Antes de ligar o gravador obtenho informações valiosas para quem desconhece o que aconteceu e o que acontece no futebol feminino brasileiro e conheço uma das poucas pessoas idealistas que ainda bota os pés no nosso planeta.
Antes que eu pudesse fazer minhas perguntas, ela enfatiza que o futebol feminino só não é melhor por responsabilidade das próprias jogadoras. Isto já me deu idéia de como ela é no comando das meninas do Juventus. E de tanta história para contar, tive que dividir esta entrevista em pelo menos duas partes. Segue a primeira.
L – De onde veio a vontade de treinar uma equipe de futebol? Você já jogou em alguma equipe? Se sim, quais e quando?
M – O meu início de carreira foi aqui no Juventus com 15 anos de idade, apaixonada por futebol. Na época em que eu comecei tive todo apoio do meu pai, nem tanto da minha mãe, mas quando ela ia assistir aos meus jogos, arrumava encrenca porque alguém tinha encostado em mim. (risos) Joguei totalmente para o Juventus, o que soma, até hoje, 29 anos de clube.
L – Como você costuma comandar suas meninas? É linha dura, conservadora ou mais aberta para conversas, tipo mãezona?
M - Na verdade eu cuido de tudo no departamento de futebol feminino, da parte administrativa, dentro de campo, de cada atleta em particular, já que temos um lugar onde vinte atletas moram, então na verdade eu sou técnica, mãe, roupeira, massagista, médica, enfermeira, entendeu? Então o estilo de trabalho deve ser enérgico, tipo um Luxemburgo misturado com Felipão. Procuro ter um pouquinho de cada um para poder tocar, até porque a maioria das atletas é menor de idade. A coisa funciona mais ou menos assim, as meninas procuram o Juventus para se formar e crescer dentro do futebol. Elas saem de casa e passam a ser de minha responsabilidade. Assim elas devem ser tratadas como filhas, ou melhor, mais que isso. Ainda mais porque devem estar sob orientação constante e muitas não estão muito preocupadas em escutar e seguir o que passamos. Não gostam do que falamos, acham que estamos errados, e normalmente quebram a cara. Eu não acho que quebrando a cara é o melhor caminho para se aprender. Então eu mantenho essa rigidez para que as coisas saiam certinhas, para que não se erre, para não atrapalhar o jogo e a equipe.
L – No que consiste basicamente os seus treinos? Você se preocupa em estimular as atletas para que tenham, além do desenvolvimento técnico, um melhor desenvolvimento tático, assim como os jogadores argentinos são formados?
M – Muito. Observo e imponho a questão tática para as meninas porque hoje o futebol já não prioriza muito a habilidade, claro que se você tiver uma jogadora habilidosa, ela se sobressai dentro da sua equipe, mas se você não tiver um esquema tático para que o futebol seja desenvolvido amplamente, o time não rende, vira uma pelada dentro do seu time.
L – E como são divididas as tarefas comuns que as garotas em idade escolar devem fazer? A questão de freqüentar a escola, como é tratada aqui no Juventus?
M – Relaciono isso até com a questão do desenvolvimento tático das meninas. Hoje o ensino público é altamente deficiente. Isso desestimula as crianças e cria nestas mesmas crianças, a ilusão de que o futebol vai ser tudo na vida delas, sem saber que a “vida útil” de um atleta é relativamente curta. Tomam como exemplo jogadores que não tiveram estudo e conseguiram muitas coisas a partir do futebol, mas a coisa não é assim. Elas vão à escola pela manhã, e à tarde treinam. Exijo dedicação no estudo e já temos duas atletas formadas, desempenhando funções além do futebol, ou seja, elas têm outra profissão. Até para terem com o que sobreviver, caso alguma coisa aconteça e elas fiquem impossibilitadas de continuar jogando. Sem contar a educação que vem de casa, de ser honesto, de respeitar os mais velhos, de respeitar o próximo, de ser humilde; se a atleta tem muito futebol, mas não tem um comportamento que envolva as questões básicas de boa convivência, ela não será nada no futebol.
L – Como é feita a escolha das atletas para compor elenco? Peneira, indicação, contato com empresários? Quem faz a avaliação?
M – Eu faço a avaliação e isto se dá pela peneira. Isto acontece de segunda a sexta. Se passar nesta peneira, vai para uma outra fase, porque muitas aparecem por aqui na intenção de brincar de jogar bola, e o Juventus, como clube formador de atletas, celeiro de muitas meninas que hoje estão na seleção, não pode deixar a coisa virar brincadeira, isso aqui é coisa séria. Não tem ninguém com preferência porque foi indicada por algum sócio, conselheiro ou empresário amigo de alguém. Acho que a partir do momento que apareceu para fazer um teste, todas são iguais e todas merecem alguma chance. Durante algum tempo, mesmo tendo passado nos testes, a atleta é analisada, especialmente no que se refere à comportamento. A equipe deve estar coesa e concentrada nos objetivos, não há espaço para perder tempo com assuntos que não levam a lugar nenhum. Todas estudam, então não tem tempo pra pensar em bobagens.
L – Quem forma a comissão técnica do Juventus?
M – A comissão técnica é escolha minha, então nós trabalhamos com o Luiz que é do clube mesmo, o Felipe, preparador de goleiros, o César, nosso massagista estudante de fisioterapia. A Fabiana, fisioterapeuta. Médico é contratado para a época dos jogos, mas é sócio do clube. O departamento médico usado é na Javari. O grupo é fechado por sete ou oito pessoas que cuidam de mais ou menos sessenta meninas.
L – Quantas atletas forma o elenco do Juventus?
M – Temos vinte meninas inscritas para disputar o Campeonato.
L – Há atletas de seleção ou que já tenha passado pelo Juventus e hoje é da seleção? Alguma com chance de ser convocada?
M – Temos a Thaís Duarte que foi agora para a seleção sub-17, temos também a Ingrid Carolina, vice-campeã sul-americana, no final do ano disputará o Mundial sub-17 na Nova Zelândia. Na seleção sub-20 temos umas seis ou sete atletas. Na principal, que disputará o jogo na China no sábado, passaram por aqui a Daniele, a Cristiane, a Aline Pelegrini.
L – Qual é a média de idade das meninas?
M – 18 anos
L – Há quanto tempo o Juventus disputa o Campeonato Paulista?
M – Há 29 anos entre todas as variações que o campeonato já teve.
L – Há algum critério ou fase classificatória para se disputar o Campeonato Paulista?
M – Não, não há. O Campeonato Paulista funciona assim: Há as equipes que são filiadas à Federação e outras que são indicadas pela Secretaria, elas se unem sob as regras da Federação para disputar o Campeonato. Não há critério para qualificação, mas também não é interessante mantermos equipe que logo de cara tomam um placar de trinta, quarenta a zero.
L – Quais são as maiores dificuldades encontradas para enfrentar equipes que se localizam em diferentes lugares do estado?
M – Quando o jogo é disputado em Botucatu num domingo, por exemplo, é impossível sair daqui no mesmo dia. Temos que sair no sábado, precisamos ficar num hotel, é o transporte de uma equipe de mais ou menos vinte e cinco pessoas, é alimentação. Isso gera um custo muito alto.
L – Como vocês lidam com o preconceito que envolve a prática de futebol pelas mulheres?
M – Bem, o preconceito em relação às mulheres que praticam o futebol, vem única e exclusivamente dos homens e vou explicar o por que: a mulher está ocupando um bom espaço no futebol e ocupando, conseqüentemente o espaço deles. É muito mais determinada, ela não dá o braço a torcer no sentido de não ter medo de encarar, de dar a cara pra bater, de peitar quem quer que seja em determinado no lance. Pode reparar, a mulher não dá um passo pra trás quando discute. Ela estufa o peito e vai pra cima. A mesma postura você pode observar nas mulheres que arbitram os jogos masculinos. Eles podem ir pra cima, mas elas não recuam. Isto intimida e muito os homens. Fora o fato de ser bem cotada. Muitos ficam preocupados em perder o “seu” lugar para alguma mulher.
Equipe que disputa o Paulista
Cibele
Tuesday, 15 April 08, 07:07 AM
Conheçam um pouco do time feminino do Nacional A.C. sediado na Barra Funda, nas palavras do Dr. Giulio Cesare.
R: Pensamos em montar o time feminino (eu e o Prof Marcel), pq sempre fui apaixonado pelo futebol e sempre quis trabalhar com futebol. Já trabalho há 12 anos como médico e diretor do Dep Médico do NACIONAL AC, mas tinha vontade de atuar por trás, nos bastidores também, na área de gestão de uma equipe. No masculino, não via chances, pelo menos por enquanto, o feminino estava parado, largado, pensei no futuro dessa modalidade.
R: Dinheiro, sempre dinheiro, hoje nossa maior dificuldade é arrumarmos patrocínio para custear as despesas do time.
R: O primeiro Campeonato Paulista de Futebol Feminino, organizado pela Federação Paulista de Futebol, aconteceu em 1987 e teve como campeã a equipe do C.A. Juventus. Mas teve mais destaque em 98, com a chamada Paulistana. Hoje temos uma previsão desse campeonato ter pelo menos 3 anos de duração, por contrato, nesse ano de 08, são 18 equipes.
R: De abril a novembro, com pausa para os jogos regionais em julho e olimpíadas em agosto.
R: O elenco ainda está em formação, começamos a apenas 15 dias, hoje temos 25 meninas, mas a procura está bem grande
R: Temos algumas meninas da época da Paulistana, a Ana Paula, nossa goleira, já teve passagens pelo Corinthians e principalmente pelo São Paulo, onde foi campeã paulista.
R: Posso dizer, que hoje ainda é bem amador, com ajuda de amigos aqui e outros ali, até conseguirmos um patrocínio mais evidente.
R: Algumas empresas mostram certo interesse, mas é um processo longo, com muitas dúvidas e reticências em relação a evolução e organização desses campeonatos.
R: Muito, muito mesmo. Não vem de um setor específico, o preconceito é geral, de torcedores, dirigentes, investidores, imprensa.
R: Acho que é uma questão cultural, creio que somente com o tempo e com a estabilização da modalidade, diminuiremos esse preconceito.
R: Claro, o preconceito vem de aspectos culturais, em países como EUA, CANADÁ e SUÉCIA, as meninas jogam futebol desde cedo, aqui ainda não. A falta de investimento é na sua maior parte devido a política, dirigentes de federações e confederações não apostam e não querem que a modalidade evolua.
R: Acho que sim, por isso estou metido nessa (risos), senão tiver espaço, significa que não vou dar certo nem ter êxito. Creio que dá pra fazer um modelo diferente, mais profissional, já que não há vícios de gestão nessa modalidade, que não possam ser quebrados.
R: Não vem, esse ano a FPF e uma empresa privada, que vão bancar o paulista fornecem uma ajuda de custo irrisória, R$ 10 mil por equipe, o que não banca nem um mês de torneio. A CBF prometeu fazer uma liga nacional, até agora nada foi feito ainda.
R: Com muita ressalva, não investe nem incentiva. Acho que atualmente o fato da CBF existir ou não, não muda em termos práticos o fut feminino.
R: Esse assunto é delicado, lidar com mulheres vc precisa ter um comando muito mais psicológico. Às vezes uma palavra mal colocada gera uma confusão danada. Diferente dos marmanjos que vc xinga, esbraveja e ta tudo certo.
R: A semelhança é muito pouca, somente no gosto de jogar futebol e no modo de disputa dos jogos. Já as diferenças são enormes: patrocínio, salários das atletas, apoio extra-campo, discriminação, valorização. O futebol não é o mesmo não, a parte física ainda se sobressai mais, e o lado emocional influencia e muito!
R: Conheço a do Juventus, a Magali, muito boa e disciplinadora, por sinal.
R: Não, mas há o que falei anteriormente, às vezes você coloca uma frase que normalmente seria bem recebida pelos homens, ou sem grande repercussão, já pelas mulheres, pode fazer com que você perca o comando do time.
R: Não, infelizmente não, existem situações isoladas, mas de um modo geral ainda não.